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O enxofre foi o primeiro agente de vulcanização conhecido. Deve-se ao americano Charles Goodyear a sua descoberta, em 1839. Como já vimos na página Vulcanização, a sua descoberta foi disputada também pelo inglês Thomas Hancock. Existem diversas variedades de enxofre para borracha. O enxofre pode apresentar-se na forma:
A dispersão do enxofre nalguns tipos de borracha é difícil (por exemplo, na borracha de acrilonitrilo butadieno, borracha de etileno propileno dieno e em borracha butílica). Nestes casos, é recomendada a utilização de enxofre nas formas 3 ou 4.
Por outro lado, a solubilidade do enxofre nos diversos tipos de borracha é muito diversa. Bastante mais solúvel nas borrachas natural (NR) e de estireno butadieno (SBR) do que na borracha de polibutadieno (BR), é vulgar surgirem problemas em misturas de NR/BR ou de SBR/BR porque, sendo a migração do enxofre muito mais rápida na borracha de polibutadieno, longos períodos de armazenagem podem dar lugar à formação de cristais de enxofre na fase da borracha de polibutadieno e ocorrer uma sensível perda de propriedades no vulcanizado se não forem tomadas medidas correctivas, como, por exemplo, uma cuidada remistura do composto antes da sua utilização.
No Quadro 1 apresenta-se a solubilidade do enxofre em vários tipos de borrachas, a diferentes temperaturas.
| Quadro 1 – Solubilidade do enxofre em vários tipos de borracha, a diferentes temperaturas (% em peso) |
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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Temp. ºC | NR | SBR | OE-SBR | BR | CR | NBR | IIR | EPR |
| 20 | 1,3 | 1,2 | 1,5 | 1,0 | – | 0,3 | – | – |
| 25 | 1,4 | – | – | – | – | – | – | 0,3 |
| 40 | 2,1 | 1,6 | 1,7 | 1,5 | – | 0,5 | 0,06 | – |
| 50 | 3,2 | 3,4 | – | – | 3,4 | 1,1 | 0,8 | – |
| 80 | 5,6 | 6,1 | – | – | – | 2,1 | 1,7 | – |
| 93 | 7,1 | 8,8 | – | – | – | – | – | 2,6 |
| 120 | 10,2 | – | – | – | – | – | – | – |
| Nota:
Fonte: “Elastomer Processing – Formulas and Tables”, Kleemann/Weber, Hanser Verlag, Munich, 1998, pág. 49. |
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O enxofre apresenta mais de 30 formas alotrópicas. Das diferentes formas alotrópicas de enxofre, as mais vulgares são constituídas por anéis com 8 átomos (S8): Sα, Sβ e Sγ. Destas, a variedade mais estável é Sα, bastante estável até 95ºC e que cristaliza no sistema ortorrômbico; a 95,5ºC, a variedade Sα transforma-se em Sβ, reacção que é acompanhada de aumento de volume; esta variedade alotrópica cristaliza no sistema monoclínico e é estável até 119,7ºC, temperatura em que ocorre a fusão. A variedade Sγ cristaliza no sistema monoclínico e, como é instável a todas as temperaturas, apresenta tendência para reverter para a variedade alotrópica ortorrômbica Sα.
Estas variedades cristalinas de enxofre podem distinguir-se, para além do sistema de cristalização, pela sua cor e pela sua densidade. Assim, o enxofre Sα apresenta-se em cristais ortorrômbicos, de cor amarelo esverdeado e tem a densidade 2,07; o enxofre Sβ apresenta-se em cristais monoclínicos, de forma acicular, de cor amarelo âmbar, e tem a densidade 1,96; o enxofre Sγ apresenta-se em cristais monoclínicos em forma de agulhas, de cor amarelo pálido e tem a densidade de 1,92.
Existem também variedades alotrópicas constituídas por anéis com 7 e com 6 átomos de enxofre. Os anéis com 7 átomos de enxofre apresentam 4 variedades conhecidas: S7 α, β, γ e δ. Os anéis S7 possuem uma cor amarelo- brilhante. Os anéis com 6 átomos de enxofre S6 apresentam a forma de uma cadeira (Figura 1).
Figura 1 – Disposição espacial de anéis de enxofre com 6, 7 e 8 átomosExistem ainda muitas outras variedades alotrópicas, com 2 e 3 átomos de enxofre (em formas gasosas de enxofre) e em formas sólidas, com 10, 15, 18 e 20 átomos de enxofre. Todas as variedades referidas são solúveis em sulfureto de carbono.
A variante que é utilizada na Indústria da Borracha é o enxofre Sα, devidamente micronizado e nas formas que atrás referimos.
Processos de obtenção do enxofre
O enxofre existe na natureza no estado nativo (Figura 2), em minérios metálicos, sob a forma de sulfuretos, no carvão e nos produtos petrolíferos (gás natural ou crude).
Fig. 2 – Cristal de enxofre embebidoO enxofre que existe no estado nativo, pode ser extraído por actividade mineira tradicional ou pelo método de Frash, método inventado em 1894 pelo americano, de origem alemã, Herman Frash.
O enxofre que existe sob a forma de sulfuretos metálicos, pode ser obtido mediante a grelhagem dos minérios (pirites, por exemplo), e depois por redução de SO2 ou pelo processo Claus (processo inventado pelo inglês C.F. Claus e patenteado em 1883):
3 O2 + 2 H2S → 2 SO2 + 2 H2O
SO2 + 2 H2S → 3 S + 2 H2O
O enxofre pode ser também obtido, via gaseificação do carvão, pelo mesmo processo Claus, atrás referido.
Finalmente, o enxofre pode ser obtido dos produtos de origem petrolífera, seja no gás natural seja no próprio crude.
O enxofre presente no gás natural apresenta-se sob a forma de ácido sulfídrico (H2S); todos os tipos de gás que contenham ácido sulfídrico em quantidades superiores a 5,7 mg/m3 são designados por sour gas. O enxofre é obtido, por tratamento do gás, pelo processo Claus.
No caso do crude, a extracção do enxofre é um pouco mais complexa. O sour crude oil (crude contendo mais do 0,5% de enxofre) é tratado num reactor com hidrogénio, a uma temperatura de 300-380ºC, na presença de um catalisador, o qual promove, entre outras reacções, a hidrogenação do enxofre, com formação de H2S. A separação do ácido sulfídrico é efectuada a seguir, fazendo borbulhar a corrente de hidrocarbonetos numa solução aquosa de dietanolamina (DEA), sob pressão; nestas condições, o ácido sulfídrico dissolve-se na dietanolamina. O ácido sulfídrico dissolvido na solução aquosa de dietanolamina é depois separado por aquecimento a baixa pressão e a corrente gasosa sulfídrica é posteriormente convertida em enxofre pelo processo Claus.
